quinta-feira, 3 de agosto de 2023

DEBATE ENTRE O POETA HINDÚ, TAGORE, E ALBERT EINSTEIN - 1930

              

- Notas sobre a Natureza da Realidade -

Uma conversa entre Rabindranath Tagore 
e o Professor Albert Einstein, na tarde de 14.07.1930, 
na residência do professor em Caputh.

 

EINSTEIN: Você acredita no Divino isolado do mundo?

TAGORE: Não isolado. A personalidade infinita do Homem compreende o universo. Não pode haver nada que não possa ser subsumido pela personalidade humana, e isso prova que a verdade de que é o Universo a verdade humana. Eu tomei um fato científico para ilustrar isso: A matéria é composta de prótons e elétrons, com lacunas entre eles; mas a matéria pode parecer sólida. De forma similar a humanidade é composta de indivíduos, mas eles têm suas interligações da relação humana, que dá vida e solidariedade ao mundo dos homens. O universo inteiro está interligado conosco de maneira semelhante, é um universo humano. Eu tenho perseguido esse pensamento através da arte, da literatura e da religião, da consciência do homem.

E: Existem duas concepções diferentes sobre a natureza do universo:  1. O mundo como uma unidade dependente da humanidade. 2. O mundo como realidade independente do fator humano.

T: Quando nosso universo está em harmonia com o Homem, o eterno, nós o

conhecemos como verdade, o sentimos como beleza.

E: Esta é uma concepção puramente humana do universo.

T: Não pode haver outra concepção. Este mundo é um ser humano universal - a visão científica dele é também a do homem científico. Existe algum padrão de razão e prazer que lhe dá a verdade, o padrão do ‘Homem Eterno’ cujas experiências ocorrem através de nossas experiências.

E: Esta é uma realização da entidade humana.

T: Sim, uma entidade eterna. Temos que percebê-la através de nossas emoções e atividades. Nós percebemos o Homem Supremo, que não tem limitações individuais através de nossas limitações. A ciência se preocupa com aquilo que não se limita a indivíduos; é o mundo humano, impessoal, das verdades. A religião percebe essas verdades e as relaciona com nossas

necessidades mais profundas; nossa consciência individual da verdade ganha significado universal. A religião aplica valores à verdade, e conhecemos a verdade como boa por meio de nossa própria harmonia com ela.

E: Verdade, então, ou Beleza, não são independentes do Homem?

T: Não.

E: Se não houvesse mais seres humanos, o Apolo de Belvedere não seria mais bonito?

T: Não

E: Concordo com relação a esta concepção de Beleza, mas não no que diz respeito à Verdade.

T: Por que não? A verdade é realizada através do homem.

E: Não posso provar que minha concepção está correta, mas isto é minha crença.

T: A beleza está no ideal de perfeita harmonia que está no Ser Universal; verdade a compreensão perfeita da Mente Universal. Nós, indivíduos, o abordamos por meio de nossos próprios erros e de acertos, através de nossa experiência acumulada, através de nossa consciência iluminada - como, de outra forma, podemos conhecer a Verdade?

E: Então, de acordo com sua concepção, que pode ser a concepção Hindu, não é a ilusão do indivíduo, mas da humanidade, como um todo.

T: Na ciência passamos pela disciplina de eliminar as limitações pessoais de nossas mentes individuais e, assim, alcançar essa compreensão da verdade que está na mente do Homem Universal.

E: O problema começa se a Verdade é independente de nossa consciência.

T: O que chamamos de verdade está na harmonia racional entre o aspectos subjetivos e objetivos da realidade, ambos os quais pertencem para o homem super pessoal.

E: Mesmo em nosso dia a dia nos sentimos compelidos a subscrever uma realidade independente do homem com relação aos objetos que usamos. Fazemos isso para conectar

as experiências de nossos sentidos de maneira razoável. Por exemplo, se ninguém está nesta casa, a mesa permanece onde está.

T: Sim, permanece fora da mente individual, mas não fora da mente universal. A mesa que percebo é perceptível pelo mesmo tipo de consciência que possuo.

E: Nosso ponto de vista natural em relação à existência da verdade separado da humanidade não pode ser explicado ou provado, mas é uma crença que não pode faltar a ninguém - nem mesmo a seres primitivos. Atribuímos à Verdade uma objetividade sobre-humana; isso é

indispensável para nós, esta realidade que independe da nossa existência e nossa experiência e nossa mente - embora não possamos dizer o que significa.

T: A ciência provou a mesa como um objeto sólido, mas é uma aparência e, portanto, aquilo que a mente humana percebe como uma mesa não existiria se esse fato, que a última

realidade física da mesa nada mais é do que uma multidão de centros giratórios separados de forças elétricas, também pertences à mente humana.  Na apreensão da verdade há um conflito eterno entre a mente humana universal e a mesma mente confinada no indivíduo. O perpétuo processo de reconciliação está sendo realizado em nossa ciência e filosofia, e em nossa ética.

Em qualquer caso, se houver alguma verdade absolutamente não relacionada à humanidade então, para nós, é absolutamente inexistente. Não é difícil imaginar que em uma mente a sequência de eventos acontece não no espaço, mas apenas no tempo como a sequência de notas, na música. Para tal mente, a concepção da realidade é semelhante à realidade musical, em que a geometria pitagórica pode ser, sem significado. Existe a realidade do papel, infinitamente diferente da realidade da literatura. Para o tipo de mente possuída pela traça que come aquele papel, a literatura é absolutamente inexistente, mas para Mente humana a literatura tem um maior valor de verdade do que o próprio papel. De maneira semelhante, se houver alguma verdade que não tem sentido ou relação racional com a mente humana, ela sempre permanecerá como nada, enquanto permanecermos seres humanos.

E: Então eu sou mais religioso do que você!

T: Minha religião está na reconciliação do “Superpessoal” - O homem, o espírito humano universal, em meu próprio ser individual. Este tem sido o tema de minhas “Hibbert Lectures”, que chamaram de "A Religião do Homem"(1).

 

PONTOS DE VISTA DO 

JUDAISMO DE EINSTEIN E

O CRISTIANISMO FRENTE O PANTEÍSMO DE TAGORE

 

         Os cristãos e judeus acreditam no que a Bíblia ensina no Livro do Gênesis: que o Universo foi criado antes da criação do ser humano, à imagem e semelhança de Deus – o Criador. Essa crença colide com a crença de que tudo existiu simultaneamente. De alguma forma didática, livro de Gênesis narra que a substância com que foi criado o ser humano – homem e mulher – de matéria semelhante à da natureza, do “pó da terra”. No entanto Gênesis nos ensina que a vida desses seres, ainda inanimados – como apenas forma sem vida – recebeu o sopro divino, que deu-lhes a vida. A substância desse “sopro divino” é o Espírito divino, dotando a criatura de Deus com vida, sabedoria, capaz de ver, ouvir, aprender. Além de ter uma consciência capaz de discernir o bem e o mal. Em minha modesta opinião discordo que tudo que existe não existiria sem a presença da realidade humana (3).

Tagore afirma: “A beleza está no ideal de perfeita harmonia que está no Ser Universal”. Concordo. Deus, o criador de tudo, formou o universo, formoso, quase ilimitado – menor apenas que Ele mesmo, mas dotado de beleza e harmonia. Criou o ser humano “a sua imagem e semelhança” – um ser responsável com relação a seus pensamentos e ações. A Bíblia ensina que o homem foi criado para ser eterno – porém, pelo fato de ter sido criado, à imagem e semelhança com seu Criador; isto é, com liberdade, poder da própria divindade infinita que o formou do barro e deu a ele, além da vida, a alma eterna.  Por isso, relata o Gênesis, o homem foi criado com capacidade de decisão – para o bem ou para o mal.

A Bíblia ilustra de forma admirável essa realidade: “Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar. E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.15-17).

Sem liberdade o ser humano seria nada mais que um animal irracional – como as outras criaturas. Seria apenas motivado pela fome e outros instintos de sobrevivência, incapaz de exercer qualquer livre arbítrio – com seu amplo significado e poder, religioso, psicológico, moral e científico.

O ser humano é universal, justamente por sua capacidade de pensar, refletir, optar, decidir – adorar o Divino ou idolatrar a si mesmo. Como descendestes de Adão e Eva, também podemos escolher entre a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal.

Nesse diálogo entre dois sábios – Albert Einstein, Prêmio Nobel de Física, em 1921 – e Rabindranath Tagore – Prêmio Nobel de Literatura, em 1913. O amistoso confronto entre os dois revela dois pontos de vista, duas crenças em oposição. Tagore se revela um panteísta -  que identifica totalmente Deus e o Universo, como única realidade integrada. Os judeus, como Albert Einstein, e os cristãos, são monoteístas: creem que a humanidade nasceu por obra de Deus – única divindade, criador do céu e da terra, do ser humano e da natureza em sua espantosa diversidade.

Quando o nazismo  começou a perseguição de judeus, na Alemanha, Einstein deixou a Europa e emigrou para os Estados Unidos, em 1932. Se estabeleceu em Princeton, Nova Jersey, onde continuou seu trabalho. Graças ao fato de ser uma figura-chave, em função de sua Teoria da Relatividade Geral, de 1915 – estava bem informado do avanço científico da Alemanha, então sob Hitler.

 Conforme a BBC de Londres. “em agosto de 1939 ele assinou a carta endereçada ao então presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, escrita por Leó Szilárd, na qual alertavam a Casa Branca que a Alemanha poderia desenvolver uma bomba atômica, devido a descobertas científicas sobre a fissão do urânio. Isso supostamente precipitou a criação do Projeto Manhattan, que o governo dos EUA colocou na mão de Oppenheimer, em 1942, quando ele já era um dos principais cientistas em seu campo”.

O suposto pacifismo, tanto do judaísmo, como do panteísmo, sempre enfrentou vicissitudes históricas – que levaram a conflitos sangrentos – seja entre hindus e muçulmanos, que terminou com a divisão do território da Índia, entre ela e o Paquistão, então criado; como no Nazismo de Hitler, que teve apoio do uma geração de cristãos. O próprio Vaticano, nas guerras mundiais, esteve ao lado do chamado Eixo: Roma, Berlim e Tóquio.

“Seis anos depois, em 2 fatídicos dias de agosto de 1945, as bombas conhecidas como Little Man e Fat Boy foram jogadas sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, em soldados, marinheiros, civis, mulheres e crianças. Essas detonações aceleraram o fim da 2ª Guerra Mundial, mas deram inicio a chamada Guerra Fria, que dominou a última metade do Século 20.  O homem sem o Deus de N.S. Jesus e sem a paz anelada pelo Panteísmo, com certeza poderá continuar sua trágica jornada rumo a destruição” (5).

Se as bombas jogadas sobre as populações inocentes de Hiroshima e Nagazaki – matando muitos milhares de civis, precipitaram o fim da 2ª Guerra Mundial, elas ainda são uma ameaça contra a paz mundial e a bilhões de seres humanos.  Será assim o melancólico fim da raça humana no planeta? Com certeza Deus é o senhor da história. Nossa alma eterna precisa ser preservada pois está escrito, “o que o homem plantar, isso colherá”. Sejamos, pois, arautos da paz, tanto na teoria como na prática, ensinava e vivida por Jesus Cristo. (Pesquisa e texto de José J. de Azevedo/8.2023).

 

 

FONTES

 

1.       The first conversation was documented by Amiya Chakravary &

Dmitri Marianoff, Einstein's stepson in law.

2.       New York Times, published this conversation on the 10th August 1930,

with the title: "Einstein and Tagore Phumb The Truth".

3.       Bíblia Sagrada – Livro de Gênesis, Capitulo 1.

4.       https://www.bbc.com/portuguese/articles/c90vvwg7y59o - Oppenheimer e Eistein: a conturbada relação entre o ‘pai da bomba atômica’ e o Nobel de Física.

5.       https://radiopeaobrasil.com.br/ha-80-anos-uma-carta-de-eistein-a-franklin-roosevelt-iniciou-o-projeto-manhattan-que-produziu-as--primeiras-bombas-atomicas/