sábado, 21 de outubro de 2017

HISTORIADOR HOLANDES CONTESTA A VERSÃO DA GLOBO SOBRE “MÁRTIRES DE CUNHAÚ”, EM 1645, QUE INCRIMINA CRISTÃOS CALVINISTAS


Talvez em função de sua guerra contra o cristianismo e seus valores, dogmas e símbolos – como vemos nas reportagens, novelas e noticiário, a Rede Globo publicou uma versão totalmente falseada dos fatos ocorridos no Rio Grande do Norte, em 1645, quando dezenas de fiéis católicos foram mortos por indígenas. Qual o propósito? Talvez seja o de tentar criar rivalidades entre os ramos cristãos no Brasil. Nunca católicos e evangélicos estiveram tão em sintonia quanto as princípios centrais do cristianismo, e em pleno acordo com a defesa da fé cristã e princípios éticos e morais frente a tentativas de desconstrução da famílias cristãs, com a chamada “ideologia de gênero”, que nega a criação divina do homem e da mulher . Tanto é essa sintonia que, por exemplo, o Senador Magno Malta, evangélico, levou a tribuna a imagem de Maria – N.S. Aparecida – defendendo a Igreja Católica, aviltada em uma encenação artística onde a imagem é trazida por um artista completamente nu, com seu membro encostado a imagem da santa. Depois o sujeito agacha e começa a ralar a imagem de gesso para, no final, jogar o pó da mesma sobre seu membro. Essa é outras manifestações “artísticas” – como a da exposição protagonizada pela Fundação Santander, onde hóstias são profanadas com palavrões e personagens como Jesus e Maria -  são ridicularizados. Tudo isso a Globo defendeu em rede nacional! – nem mesmo quanto ao fato de exporem cenas de nudez, coito homossexual em grupo, coito com animais, etc., e levarem coercitivamente centenas de escolares, crianças e adolescentes menores de 16 anos, a verem a tal exposição “Queer”, tripudiando sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e a autoridade constitucional dos pais sobre seus filhos. Uma prática jornalística isenta de partidarismo nunca é unilateral em suas afirmativas - ouve os vários pontos de vista de um fato, o que geralmente vem acontecendo com o jornalismo tendencioso da TV Globo e seus veículos, escritos ou virtuais.

Agora, com o processo finalizado pelo Papa Francisco, os mártires do Rio Grande do Norte, 28 deles, foram canonizados como santos, a Globo anota versões acusando os calvinistas que legaram um fantástico patrimônio urbanístico, histórico e cultural ao Nordeste brasileiro que infelizmente, para a região e ao próprio Brasil, foram expulsos cerca de duas décadas depois de ocuparem a região . Eis o início da reportagem do site G1, da Globo:

 Em 1645, moradores do Rio Grande do Norte resistiram aos holandeses. Mais de 80 pessoas foram mortas.” “Foi na Capitania do Rio Grande do século 17 que viveram os homens, mulheres e crianças que se tornarão os novos santos brasileiros neste domingo (15.10.17). O papa Francisco vai canonizar, de uma só vez, trinta fiéis mortos pelos holandeses calvinistas nos massacres de Cunhaú e Uruaçu em 1645, no Rio Grande do Norte. Naquela época, os holandeses invadiram o Nordeste do Brasil, pois tinham interesse nos engenhos de cana-de-açúcar. Os comandos, no país, partiam de Pernambuco. Além do objetivo econômico, entretanto, os invasores tentavam impor a religião calvinista por onde passavam e não toleravam a fé católica, segundo conta o padre José Neto, pároco de Canguaretama, na Grande Natal”.

Como a Globo não deu alternativa a seus leitores, em comentários sobre a sua reportagem, nem direito de resposta a milhões de brasileiros de origem Calvinista, como Presbiterianos, Batistas, Assembléianos calvinistas, etc., resolvemos abrir espaço em nosso Blog para contar uma outra história, escrita por um historiador e baseado em fontes primárias antigas; preservadas na Holanda e em outros museus históricos – e não em  versões marcadas pelo preconceito aos evangélicos do Brasil e, em especial, do Rio Grande do Norte. Outra vertente midiática,  à esquerda, o site da UOL, ligado a Folha de S. Paulo, replica uma história que nunca foi comprovada com documentos históricos:


A história dos massacres de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte, só começou a ser divulgada no fim dos anos 1980, graças às pesquisas do monsenhor Francisco de Assis Pereira (1935-2011), que escreveu um livro sobre o tema, chamado “Beato Mateus Moreira e seus companheiros mártires”.    Segundo o relato da Igreja Católica, invasores holandeses calvinistas assassinaram 69 pessoas que assistiam a uma missa celebrada pelo padre André de Soveral na cidade de Cunhaú (atual Canguaretama), em 15 de julho de 1645”.



Frans Leonard, Ministro e Historiador Holandes

A VERDADEIRA HISTÓRIA, CONTADA PELO AUTOR DO

LIVRO “IGREJA E ESTADO NO BRASIL HOLANDES”, 

PELO HISTORIADOR FRANS LEONARD SCHALKWIJK*



“AS LÁGRIMAS DE CUNHAÚ”

“No ano 2000, os jornais noticiaram a beatificação dos mártires de Cunhaú(1645), no Rio Grande do Norte, pelo Papa João Paulo II. A matança ocorreu durante as primeiras semanas do levante português contra a ocupação flamenga(1630-1654). Uma das reportagens afirmou que essas horrendas barbaridades foram cometidas por ordem do governo holandês no Recife e com a cooperação de um pastor “calvinista”. Sem querer diminuir a monstruosidade do trágico acontecimento, convém lembrar pelo menos três fatos do contexto histórico daqueles dias de guerra que marcaram o começo do fim da ocupação holandesa do Nordeste.



Em primeiro lugar, observamos que não foi o governo holandês que ordenou a chacina, mas ela foi uma vingança por parte dos indígenas em reação às notícias que corriam sobre as crueldades dos portugueses, ajudados por uma tribo selvagem da Bahia. Desde o início da revolta (13/6/1645), cada vez ficava mais claro que, onde os portugueses restabeleciam seu domínio, estava reservada aos índios em especial uma morte terrível. Consequentemente os “brasilianos” (como os holandeses chamaram os índios tupis) se refugiaram perto das fortificações holandesas, consideradas inexpugnáveis. Outros decidiram evitar o desastre aparentemente inevitável e pegaram em armas. Foi isto o que aconteceu em Cunhaú, no Rio Grande do Norte.

Desmistificando lendas da História

Na terra potiguar, a população indígena consistia em grande parte de índios antropófagos (tapuias), sob a liderança do seu cacique Nhanduí. Para os holandeses, os tapuias significavam um bando de aliados meio inconstantes, pois era um povo muito independente, que não aceitava ordens de ninguém, mas decidia por si o que era melhor para sua tribo. Muito amigo da tribo era um certo Jacob Rabe, casado com uma índia; ele servia como elo entre os tapuias e o governo holandês.
O Brasil Holandes: Expulsos, fundaram  Manhattan
Entre os indígenas do extremo Nordeste, havia em geral grande ódio contra os portugueses, sem dúvida pela lembrança de acontecimentos anteriores à chegada dos holandeses, que eram considerados os libertadores da opressão lusa. Várias vezes esses índios quiseram se aproveitar da situação dos lusos como vencidos, para vingar-se deles. Assim, em 1637, depois de Maurício de Nassau conquistar o Ceará, os índios procuraram matar todos os portugueses da região, que então foram protegidos mediante as armas pelos holandeses. A mesma coisa aconteceu no Rio Grande em 1645. Os tapuias sentiram que, com o início da revolta, havia chegado a hora da verdade: eram eles ou os portugueses. E, no dia 15 de julho, começaram por Cunhaú, massacrando as pessoas que estavam na capela e, posteriormente, numa luta armada, o restante.


Uma aldeia fundada pelos holandeses em 1664.
Em segundo lugar, de fato o nome de um pastor protestante está ligado a esse episódio. Porém, de modo exatamente contrário àquele que se supõe, porquanto não foi ele quem orientou a chacina, mas foi enviado pelo governo para refrear a selvageria dos bugres. Quando, no dia 25 de julho, o governo holandês no Recife soube dos terríveis acontecimentos no Rio Grande do Norte, despachou o Rev. Jodocus à Stetten, pastor da Igreja Cristã Reformada e capelão do exército, junto com o capitão Willem Lamberts e sua tropa armada, “para refrear os tapuias e trazê-los para (o Recife) a fim de poupar o país e os moradores (portugueses)”. Os índios, porém, ficaram enfurecidos com os holandeses, não entendendo como estes podiam defender seus inimigos mortais, e até romperam a frágil aliança com os batavos. Antes de regressar para o sertão do Rio Grande, fizeram ainda outra incursão vingadora contra os portugueses, desta vez na Paraíba.

Em terceiro lugar, notamos o fim dos tapuias e de Jacob Rabe. Alguns meses depois da matança em Cunhaú, esse funcionário da Companhia das Índias Ocidentais, que havia recebido o mensageiro governamental, pastor Jodocus, a mão armada, foi morto por ordem do próprio governador da capitania do Rio Grande do Norte, Joris Garstman. O capitão Joris era casado com uma senhora portuguesa que tinha perdido muitos parentes em Cunhaú. Quanto aos tapuias, depois da expulsão dos holandeses e da restauração do domínio português, os que não quiseram submeter-se à orientação político-religiosa de Lisboa foram massacrados, como diz o Dr. Tarcísio Medeiros, na “mais sangrenta guerra de exterminação que existiu por este Brasil”. Puro genocídio.

Esses três fatos complementares não diminuem em nada o sofrimento de Cunhaú, dessas vidas inocentes esmagadas entre os rolos compressores do moinho da luta armada. Porém, talvez possam eliminar um pouco do veneno da história, por nos permitirem entender melhor o contexto daqueles dias cheios de angústia para ambos os lados. Escrever história objetivamente é muito difícil, ainda mais quando se trata de um caso controvertido como este, com muitos pormenores desconhecidos. Porém, afirmar, como foi feito por certos porta-vozes, que as barbaridades de Cunhaú foram perpetradas a mando do próprio governo holandês, e ainda por cima orientadas por um pastor evangélico, simplesmente não corresponde à verdade. Convém distinguir os fatos da interpretação dos fatos. Isso não atenua, antes aumenta a nossa ansiosa expectativa do dia em que o Senhor enxugará todas as lágrimas, inclusive as de Cunhaú” (Ap 7.17).

*Frans Leonard Schalkwijk nasceu em Amsterdã em 1928, e foi ordenado Ministro da Palavra de Deus na Igreja Reformada na Holanda em 1954. À partir de 1959 ele passou a servir no Brasil por 4 décadas. Foi pastor na Igreja Reformada, em S. Paulo, foi mis...sionário no Estado do Paraná, professor e reitor no Seminário Presbiteriano do Norte, em Recife e também professor no Centro Evangélico de Missões, em Viçosa-MG. Depois de regressar a Holanda, serviu em vários seminários no exterior. Publicou vários livros entre eles "Igreja e Estado no Brasil Holandês". É doutor em Teologia e membro do Instituto Histórico de Pernambuco. Casado com a Srª Margrietha tem 8 filhos e vários netos e bisnetos.
O presente texto foi publicado originalmente na revista Ultimato (maio-junho 2000).
(Editado por José Julio de Azevedo)

 FONTES:

- https://tokdehistoria.com.br/tag/frans-leonard-schalkwijk/

- https://ipb.org.br/informativo/as-lagrimas-de-cunhau-4160