quarta-feira, 12 de abril de 2017

OS LIVROS - Poema Cinético / O Livro e o Ser Humano


 

O LIVRO E O SER HUMANO


Creio que nenhum objeto é mais semelhante ao ser humano que um livro

Começando pela capa,
que é a persona - isto é, aquela representação nem sempre fiel ao
conteúdo, porém de certa forma indicativa da personalidade, do seu
caráter. Ali, de forma visual, o livro busca atrair e agradar amigos e
interessados nesse perfil ou tema explicito. Depois vem a chamada folha de rosto,
a página que contém informações essenciais - como a carteira de
identidade que levamos no bolso, ou na bolsa: Nome, data e local de
nascimento. Depois temos a ficha catalográfica, com outras
informações e conexões, como um cartão de visita. Em seguida encontramos
uma ou mais páginas para o índice - que seria um perfil resumido da
pessoa, seus temas ou assuntos prediletos, um curriculum vitae!

Não podemos nos esquecer das orelhas
que, em vez de ouvir, falam conosco sobre o conteúdo do livro. Essas
orelhas falam conosco sobre o assunto do livro. Geralmente resumem a
biografia do autor, opinião de um especialista ou a visão resumida do miolo,
que é o cérebro do livro. Da mesma forma nós humanos somos ouvidos por
outras pessoas que, em conversas, nos descrevem de forma generosa ou,
mesmo, impiedosa.

Depois da folha de rosto e do índice, vem as páginas do chamado prefácio
- geralmente o autor, ou mesmo um convidado, fala sobre o livro,
resumidamente, destacando aspectos mais importantes, capazes de cativar a
ãtenção do leitor. O ser humano também é prefaciado constantemente, com
criticas construtivas ou destrutivas por outros humanos - essa é mais
uma semelhança marcante do livro com uma pessoa. Da mesmo forma há
aqueles que gostam ou não gostam de um livro - muitas vezes julgando
pelas aparências, ou por aquilo que falam a seu respeito e não por uma
leitura mais profunda e atenciosa: são os que fazem de livros ou humanos
suas resenhas e criticas - para outros ouvidos ou leitores de jornais
ou revistas.

Como dissemos, o miolo é semelhante
ao cérebro humano. Ali encontramos, nas linhas ou entrelinhas, o
coração e a alma do autor revelados através de signos gráficos, imagens,
ênfases, parágrafos e opiniões, bem como emoções descritas, comédias e
tragédias, narrativas épicas ou teatrais. Porém, há livros que se
dedicam a assuntos técnicos, mecânicos, matemáticos, científicos - são
como seres humanos especialistas que, deixando de lado a emoção, se
aplicam a lógica, cálculos, pesquisas. São como pessoas obsecadas pela
profissão, firmes, seguras, calculistas, que deixam de lado - mas de
forma sutilmente presente - o coração que pulsa e que os move.

Porém
se o conteúdo é romance, poesia, narrativas históricas ou biográficas, o
livro pode nos levar a emoções, sentimentos genuinamente humanos, como a 
alegria, o prazer, a empatia, simpatia ou rejeição, raiva, conflitos e
similaridades. Da mesma forma que um ser humano é construído, em seus
valores, gostos, posturas e crenças, na vivencia com seus semelhantes,
os livros forjam constumes, tradições, cultura - as civilizações! Sua
interação com o humano se apresenta como um palco onde as personagens
dialogam, interagem ou manifestam confrontos e opiniões divergentes.

O
livro é de tal forma semelhante ao ser humano que pode ser reescrito, à
cada leitura. O poeta mexicano Octávio Paz escreveu sobre esse
potencial de mutação como uma característica da interação do texto
escrito, seja um poema, uma crônica, novela ou conto entre o leitor e o
livro. A leitura, pois, é assimilada a partir das vivências e
experiências de outro cérebro, outro coração - sempre enriquecendo a
alma humana. Quanto mais esforçada a exegese do texto mais fiel seria a
interpretação do conteúdo do miolo - não nos esquecendo, porém,
que o analista infuencia o diagnóstico do analisado. Da mesma forma só
podemos interpretar o outro quando nosso interesse por ele é genuino,
altruista e profundo.

Enfim, da mesma forma que o
humano, cada livro tem sua alma. A alma do livro só morre quando
desaparece o último exemplar da obra escrita - ficando, porém, no miolo
de quem os leu, consciente ou inconsciente, forjando o legado cultural
da humanidade. A alma humana, porém, perdura para sempre como ensinam os
livros sagrados das mais diversas tradições religiosas.

Ah!
Como ficam entristecidos os livros velhos, desgastados pelo tempo,
maltratos ou manuseios. São como idosos esquecidos entre as capas dos
telhados de suas casas, falando consigo mesmo sem conseguir comover
ninguém. Livros, como os humanos, também padecem da solidão. Também há
livros que, apesar de mais novos, foram abandonados em bancos de praças,
esquinas, esquecidos e desprezados como meninos de rua.

Os
livros são companheiros silenciosos que falam conosco. Apesar de não
terem a tecnologia da TV, nem o poder das redes, recursos sofisticados
da informática, celulares, eles interagem de forma admirável e profunda
com quem os lêem com atenção e de coração aberto.

Como
os humanos os livros também têm inimigos. São tiranos ou ditadores que
os proibem ou os incineram em praça pública. Muitos ficam mofando em
bibliotecas esquecidas, ou quemadas por incendios criminosos. Da mesma
forma , através da História, muitos humanos foram deportados,
perseguidos escravizados e mortos por causa da vileza, intolerância e
maldade de ditadores munidos de armas e teorias da conspiração. Assim
ocorreu na guerra mundial quando livros foram queimados e inocentes
cremados em fornos de extermínio social ou racial.

Creio
que poderíamos encontrar outras semelhanças que fortaleçam a convicção
de que o livro é o objeto mais semelhante ao ser humano. Outros meios da
mídia trazem informações que nos dão idéia do mundo. Os livros falam de
nós para nós mesmos - grandezas e misérias. Bons livros  são sempre os
melhores amigos. Porém, da mesma forma que entre nós humanos, há livros
que devem ser lidos com prudência ou, mesmo, rejeitados, em função de
perversos miolos .

Os livros em geral preservam o precioso legado
da peregrinação humana sobre a terra, forjam o progresso, demarcam
espaços onde a alma humana seja reconhecida como um bem supremo. (José
Julio de Azevedo / Curitiba, 22.04.2015) 

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