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| Santo Agostinho de Hipona |
«Não
ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde
ladrões escavam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem traça
nem ferrugem corroem e onde ladrões não minam nem roubam: Para onde está o teu
tesouro, aí estará o seu coração também. Ninguém pode servir a dois senhores,
porque ou há de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o
outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.» (Jesus, cf. Mateus 6:19-24).
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| Zygmunt Bauman |
Mamom
não era um deus pagão ao qual se oferecia oferendas e sacrifícios em altares.
Não havia uma imagem de pedra, bronze ou templo para adorá-lo. Porque, então,
Jesus alerta seus discípulos com relação a Mamom, dizendo: ... “não
podeis servir a Deus e a Mamon”! Na verdade Mamom, cuja palavra hebraica significa dinheiro, é um deus
invisível e o mais celebrado no mundo em que vivemos. Mesmo cristãos de
carteirinha, contraditóriamente, tentam dividir seu culto entre o Deus vivo e o dinheiro. Podemos
dizer que vivemos na síndrome de Mamom – esse deus servido pelo egoísmo e a
vaidade. Até denominações religiosas, que se auto intitulam cristãs, dão ênfase
ao sucesso financeiro como um dos sinais da fidelidade do adepto. É a tal da “teologia
da prosperidade” – que atrai milhões de pessoas para um Evangelho
distorcido, afastado de suas verdadeiras ênfases. O culto deixa de ser “teocêntrico”
– Deus no centro do culto – para ser culto “antropocêntrico”, ou
seja, o homem no centro do culto.
Conforme
o historiador Alderi Souza de Matos: “Embora
os adeptos da teologia da prosperidade considerem Kenneth Hagin o pai desse
movimento, pesquisas cuidadosas feitas por vários estudiosos, como D. R.
McConnell, demonstraram conclusivamente que o verdadeiro originador da
confissão positiva foi Essek William Kenyon (1867-1948)”. No Brasil, conforme Alderi, foi “nos anos 80, que os ensinos da confissão
positiva e do evangelho da prosperidade chegaram ao Brasil. Um dos primeiros a
difundi-lo foi Rex Humbard. Marilyn Hickey, John Avanzini e Benny Hinn
participaram de conferências promovidas pela Associação de Homens de Negócios
do Evangelho Pleno (Adhonep). Outros visitantes foram Robert Tilton e Dave
Robertson”.[i]
Entre
as chamadas denominações neopentecostais, que enfatizam a “confissão positiva” e a “prosperidade”
estão em maior evidencia as igrejas: Universal do Reino de Deus (Edir Macedo);
Mundial do Poder de Deus (Valdomiro Santiago) e Igreja Internacional da Graça
de Deus (R.R.Soares).
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| Thomas Mann |
MEDIDA DE TODAS AS COISAS?
A
característica fundamental do humanismo – escola filosófica que reza ser o
homem “a medida de todas as coisas” –
é justamente o homem colocado como deus. O humanismo influenciou todas as áreas
da atividade e do pensamento humano. Com o relativismo filosófico Deus, para grande parte, deixou de ser o centro.
Essa vertente conduz as pessoas a uma verdadeira teia de aranha –
embaralhando os conceitos e valores, isolando Deus nos parâmetros da metafísica.
O
humanismo nasceu no século XVI entre intelectuais, como reação a intolerância
religiosa romana – já dominada por Mamom. O movimento foi influenciado pela
redescoberta dos clássicos gregos. Sua persistência permeia os séculos
posteriores e ainda alimenta boa parte da cultura. Sua realidade é reafirmada,
na atualidade, no célebre romance de Thomas Mann, “A Montanha Mágica”, onde uma personagem, Ludovico Setembrini, afirma que “o homem é a medida de todas as
coisas”.
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| Octávio Paz |
Com essa premissa Deus ficou relativizado, as ideias e os
ideais passaram a ser ancorados na vontade do homem, em um cenário em que tudo
passa a ser relativo, já que o absoluto foi abolido, conscientemente ou não. Esse
estranho sincretismo entre humanismo e religião, pois, relativiza a Bíblia e se
volta, interesseiramente, para a mentalidade e a vontade humana, centralizada
no “culto
antropocêntrico”.
Há
mais de dois mil anos Jesus condenou a heresia modernista – cujas raízes
encontram-se na queda do homem, cuja motivação à rebelião foi a cobiça de
querer ser igual a Deus (Genesis 3.1-7) contra a afirmativa bíblico-cristã de
que é Deus a medida de todas as coisas.
Hoje
o pós-modernismo, atrelado a mesma ideia central do humanismo, deixando de lado
a razão, questiona cosmovisões ancoradas no modernismo quanto à validação da
arte e da cultura. Com a Internet os conceitos de “relativismo”, passaram a
influenciar a cultura e suas manifestações artísticas, mas também a politica e
a religião. A crença de que a liberdade passa a ser a “medida” fez trasbordar a
cornucópia de uma diversidade desenfreada e, aparentemente, sem limites.
Vemos,
pois, uma verdadeira concorrência pelos primeiros lugares, tanto na mídia como
na religião, entre estados nacionais (PIB), políticos e artistas. O poeta
mexicano Octávio Paz afirmou que o fundamento não está mais firmado na “tradição”,
mas na “mudança”. A velocidade
das informações, mutações e novidades levou o filósofo polonês Zygmunt Bauman[ii] a
cunhar a chamada pós-modernidade de “modernidade líquida”. Em seu
conceito a sociedade regride a um estádio marcado pela desorganização e a
depredação – gerando angustia e insegurança, onde heróis sem caráter parecem
prevalecer sobre a antiga moralidade baseada na ética, no trabalho, na perseverança, na hombridade, no
planejamento a longo prazo e não no imediatismo interesseiro e subvertor de
todas as normas que tanto custaram no progresso da civilização. Antes mesmo
Carl Marx já havia afirmado: “Tudo o que é sólido desmancha no ar”
- prevendo a liquidificação da realidade[iii].
Seguindo
essa tendência grande parte das religiões passou a ae utilizar de ferramentas
corruptas de persuasão e convencimento – como ocorre na vida político-partidária
de forma crescente.
Para
a mentalidade popular, biblicamente desinformada, flutuando na instabilidade
que caracteriza nosso tempo, os clérigos preferidos são os que apelam para a
ideia de um Deus que está a serviço do fiel, despojando-se de sua Soberania
para atender àquele "que decreta”ou "determina". Um Deus manipulável como
um ídolo com o qual se negocia a benção em troca de oferendas – aproveitando a
crença primitiva do animismo de índios, africanos e, mesmo, europeus – sob a
película de um cristianismo relativo – atribuindo poderes a elementos da
natureza, como o sal grosso, o lenço ungido, a pedra do Monte Sinai, a
água ungida ou benzida, o batismo nas águas, as promessas e devoção aos
santos, etc., como meios de se conseguir o favor divino. Nessa concepção não é Deus
que é todo poderoso, a oração de um super pastor é que é “forte”, de forma a manipular a vontade divina!
Com
certeza para o descrente em um Deus absoluto, Criador e Soberano, a necessidade
e a cobiça humana passaram a ser “a medida de todas as coisas”. Há,
pois, necessidade de mover-se com sabedoria, prudência e temor neste mundo
imediatista em que vivemos – para não capitular diante desse tsunami de
novidades, inclusive religiosas.
Em
seu comentário ao Salmos 52.8 Santo Agostinho de Hipona escreveu: “Deus quer um culto desinteressado, um amor
gratuito, isto é, um amor puro. Não quer ser amado porque dá alguma coisa, mas
porque dá a si próprio. Quem invoca a Deus para tornar-se rico não está
invocando a Deus, mas está invocando aquilo que deseja para si. De fato, o que
significa “invocar”, senão “chamar para si”? Chamar para si, eis o que quer
dizer invocar. Quando você diz: “Deus, dá-me riquezas”, você não está pedindo
que Deus venha até você, mas, sim, que as riquezas venham até você. Se, de
fato, você invocasse a Deus, Ele viria e seria sua riqueza. Mas você, na
realidade, prefere ter o cofre cheio e a consciência vazia. Deus preenche os
corações, não os cofres. De que lhe servem as riquezas exteriores, se o que o
move internamente é a miséria?”[i].
O
próprio Agostinho lembra que há, no coração humano, um vazio do tamanho de Deus
e que só Deus pode preencher esse vazio.
[i]
HIPONA. Agostinho de - Comentário aos Salmos (51-100).




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