quarta-feira, 16 de novembro de 2016

MODERNIDADE LIQUIDA & SÍNDROME DE MAMOM


Santo Agostinho de Hipona


«Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem traça nem ferrugem corroem e onde ladrões não minam nem roubam: Para onde está o teu tesouro, aí estará o seu coração também. Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.» (Jesus, cf. Mateus 6:19-24).

 
Zygmunt Bauman


Mamom não era um deus pagão ao qual se oferecia oferendas e sacrifícios em altares. Não havia uma imagem de pedra, bronze ou templo para adorá-lo. Porque, então, Jesus alerta seus discípulos com relação a Mamom, dizendo: ... “não podeis servir a Deus e a Mamon”! Na verdade Mamom, cuja palavra hebraica significa dinheiro, é um deus invisível e o mais celebrado no mundo em que vivemos. Mesmo cristãos de carteirinha, contraditóriamente, tentam dividir seu culto entre o Deus vivo e o dinheiro. Podemos dizer que vivemos na síndrome de Mamom – esse deus servido pelo egoísmo e a vaidade. Até denominações religiosas, que se auto intitulam cristãs, dão ênfase ao sucesso financeiro como um dos sinais da fidelidade do adepto. É a tal da “teologia da prosperidade” – que atrai milhões de pessoas para um Evangelho distorcido, afastado de suas verdadeiras ênfases. O culto deixa de ser “teocêntrico” – Deus no centro do culto – para ser culto “antropocêntrico”, ou seja, o homem no centro do culto.
Conforme o historiador Alderi Souza de Matos: “Embora os adeptos da teologia da prosperidade considerem Kenneth Hagin o pai desse movimento, pesquisas cuidadosas feitas por vários estudiosos, como D. R. McConnell, demonstraram conclusivamente que o verdadeiro originador da confissão positiva foi Essek William Kenyon (1867-1948)”.  No Brasil, conforme Alderi, foi “nos anos 80, que os ensinos da confissão positiva e do evangelho da prosperidade chegaram ao Brasil. Um dos primeiros a difundi-lo foi Rex Humbard. Marilyn Hickey, John Avanzini e Benny Hinn participaram de conferências promovidas pela Associação de Homens de Negócios do Evangelho Pleno (Adhonep). Outros visitantes foram Robert Tilton e Dave Robertson”.[i]
Entre as chamadas denominações neopentecostais, que enfatizam a “confissão positiva” e a “prosperidade” estão em maior evidencia as igrejas: Universal do Reino de Deus (Edir Macedo); Mundial do Poder de Deus (Valdomiro Santiago) e Igreja Internacional da Graça de Deus (R.R.Soares). 
Thomas Mann




MEDIDA DE TODAS AS COISAS?

A característica fundamental do humanismo – escola filosófica que reza ser o homem “a medida de todas as coisas” – é justamente o homem colocado como deus. O humanismo influenciou todas as áreas da atividade e do pensamento humano. Com o relativismo filosófico Deus, para grande parte, deixou de ser o centro. Essa vertente conduz as pessoas a uma verdadeira teia de aranha – embaralhando os conceitos e valores, isolando Deus nos parâmetros da metafísica.

O humanismo nasceu no século XVI entre intelectuais, como reação a intolerância religiosa romana – já dominada por Mamom. O movimento foi influenciado pela redescoberta dos clássicos gregos. Sua persistência permeia os séculos posteriores e ainda alimenta boa parte da cultura. Sua realidade é reafirmada, na atualidade, no célebre romance de Thomas Mann, “A Montanha Mágica”, onde uma personagem, Ludovico Setembrini, afirma que “o homem é a medida de todas as coisas”. 
Octávio Paz
Com essa premissa Deus ficou relativizado, as ideias e os ideais passaram a ser ancorados na vontade do homem, em um cenário em que tudo passa a ser relativo, já que o absoluto foi abolido, conscientemente ou não. Esse estranho sincretismo entre humanismo e  religião,  pois, relativiza a Bíblia e se volta, interesseiramente, para a mentalidade e a vontade humana, centralizada no “culto antropocêntrico”.
Há mais de dois mil anos Jesus condenou a heresia modernista – cujas raízes encontram-se na queda do homem, cuja motivação à rebelião foi a cobiça de querer ser igual a Deus (Genesis 3.1-7) contra a afirmativa bíblico-cristã de que é Deus a medida de todas as coisas.
Hoje o pós-modernismo, atrelado a mesma ideia central do humanismo, deixando de lado a razão, questiona cosmovisões ancoradas no modernismo quanto à validação da arte e da cultura. Com a Internet os conceitos de “relativismo”, passaram a influenciar a cultura e suas manifestações artísticas, mas também a politica e a religião. A crença de que a liberdade passa a ser a “medida” fez trasbordar a cornucópia de uma diversidade desenfreada e, aparentemente, sem limites.
Vemos, pois, uma verdadeira concorrência pelos primeiros lugares, tanto na mídia como na religião, entre estados nacionais (PIB), políticos e artistas. O poeta mexicano Octávio Paz afirmou que o fundamento não está mais firmado na “tradição”, mas na “mudança”.  A velocidade das informações, mutações e novidades levou o filósofo polonês Zygmunt Bauman[ii] a cunhar a chamada pós-modernidade de “modernidade líquida”. Em seu conceito a sociedade regride a um estádio marcado pela desorganização e a depredação – gerando angustia e insegurança, onde heróis sem caráter parecem prevalecer sobre a antiga moralidade baseada na ética, no trabalho, na perseverança, na hombridade, no planejamento a longo prazo e não no imediatismo interesseiro e subvertor de todas as normas que tanto custaram no progresso da civilização. Antes mesmo Carl Marx já havia afirmado: “Tudo o que é sólido desmancha no ar” - prevendo a liquidificação da realidade[iii].
Seguindo essa tendência grande parte das religiões passou a ae  utilizar de ferramentas corruptas de persuasão e convencimento – como ocorre na vida político-partidária de forma crescente.
Para a mentalidade popular, biblicamente desinformada, flutuando na instabilidade que caracteriza nosso tempo, os clérigos preferidos são os que apelam para a ideia de um Deus que está a serviço do fiel, despojando-se de sua Soberania para atender àquele "que decreta”ou "determina". Um Deus manipulável como um ídolo com o qual se negocia a benção em troca de oferendas – aproveitando a crença primitiva do animismo de índios, africanos e, mesmo, europeus – sob a película de um cristianismo relativo – atribuindo poderes a elementos da natureza, como o sal grosso, o lenço ungido, a pedra do Monte Sinai, a água ungida ou benzida, o batismo nas águas, as promessas e devoção aos santos, etc., como meios de se conseguir o favor divino. Nessa concepção não é Deus que é todo poderoso, a oração de um super pastor é que é “forte”, de forma a manipular a vontade divina!
Com certeza para o descrente em um Deus absoluto, Criador e Soberano, a necessidade e a cobiça humana passaram a sera medida de todas as coisas”. Há, pois, necessidade de mover-se com sabedoria, prudência e temor neste mundo imediatista em que vivemos – para não capitular diante desse tsunami de novidades, inclusive religiosas.
Em seu comentário ao Salmos 52.8 Santo Agostinho de Hipona escreveu: “Deus quer um culto desinteressado, um amor gratuito, isto é, um amor puro. Não quer ser amado porque dá alguma coisa, mas porque dá a si próprio. Quem invoca a Deus para tornar-se rico não está invocando a Deus, mas está invocando aquilo que deseja para si. De fato, o que significa “invocar”, senão “chamar para si”? Chamar para si, eis o que quer dizer invocar. Quando você diz: “Deus, dá-me riquezas”, você não está pedindo que Deus venha até você, mas, sim, que as riquezas venham até você. Se, de fato, você invocasse a Deus, Ele viria e seria sua riqueza. Mas você, na realidade, prefere ter o cofre cheio e a consciência vazia. Deus preenche os corações, não os cofres. De que lhe servem as riquezas exteriores, se o que o move internamente é a miséria?[i].
O próprio Agostinho lembra que há, no coração humano, um vazio do tamanho de Deus e que só Deus pode preencher esse vazio.

[i] HIPONA. Agostinho de - Comentário aos Salmos (51-100).



 













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