ESCRITOR E FILÓSOFO DENUNCIA A MANIPULAÇÃO
POLITICO-IDEOLÓGICA NO ENSINO DA LITERATURA
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| TZVETAN TODOROV DENUNCIA O NIILISMO E O SOLIPSISMO NO ENSINO DA LITERATURA |
Búlgaro de nascimento, Tzvetan Tedorov, filho de pai e mãe bibliotecários, nasceu e cresceu em meio a estantes repletas de livros, até mesmo em corredores e quartos. Desde cedo passou a apreciar clássicos da literatura adaptados para crianças e adolescentes. Nasceu em 1939 e com o final da 2a guerra seu país, como outros povos eslavos e romenos, ficaram sob a tutela da União Soviética. Com 17 anos de idade entrou para a Universidade - curso de Letras, uma consequência natural de alguém que cresceu em meio aos livros.
Conta ele que o fato do país pertencer ao bloco comunista toda a universidade , mas especialmente a área das ciências humanas, estava sob a orientação da ideologia oficial e os alunos eivados da doutrinação marxista-leninista. Nesse ambiente tinha que manter-se discreto quanto a suas ideias e concepções de mundo. Concordava em público dos slogans do Estado. Mas, nos círculos de amigos mais chegados, no lado privado da vida, dedicava-se a troca de ideias em encontros de leitura. O fato de ter nascido alguns anos antes da imposição do regime da URSS sobre os países vizinhos, e também a influencia de muitos livros, abria portas e percepções diferentes e até opostas a pregação ideológica do regime.
Em 1963 teve oportunidade de transpor a chamada "cortina de ferro" para viver no ocidente. Escolheu a França, Paris, para continuar seus estudos e refletir sobre um dos amores de sua vida, os livros.
Tzvetan Tedorov faleceu em Paris, sua segunda pátria, aos 77 anos, em 07.02.2017. Deixou para a humanidade, como escritor e filósofo um precioso legado, humanista e libertário. Fez doutorado com Roland Barthes em Literatura. Traduziu vários escritos de formalistas russos que publicou em 1965 sob o título de "Teoria da Literatura" (Em Português: T.Todorov (org.) Teoria da Literatura, Formalistas Russos, Rio Grande do Sul: Editora Globo, 1971).
Fazendo uma ponte entre o que acontecia em seu pais de nascimento e a forma com que a Literatura era tratada e ensinada no ambiente escolar e universitário da França, percebeu como a literatura - que devia ser como sempre foi, um meio de diálogo entre escritores e a população - gerando o legado milenar que fortalece a humanidade, em de seus anseios de liberdade - estava sendo colocada em uma camisa de força, transformando seu estudo e a critica literária em um fim em si mesmo. Desde então, através de seus livros, passa a questionar o estruturalismo utilizado para afastar os leitores do conteúdo mesmo das obras, navegando apenas em torno de teorias, criticas, de tal forma que, conclui ele, "na escola não mais se aprende acerca do que falam as obras, mas do que falam os críticos". Lembra que "as inovações trazidas pela abordagem estrutural nas décadas precedentes são bem-vindas com a condição de manter sua função de instrumentos, em lugar de se tornarem seu objetivo próprio".
O último livro seu, publicado no Brasil este ano tem, por isso, o sintomático título de "A Literatura em Perigo" (Tzvetan Todorov; tradução de Caio Meira, Rio de Janeiro: DIFEL, 2019).
Sua oportuna e visceral "critica da critica" colocou em xeque um sistema que estava afastando o estudante do legado precioso da humanidade, transcrito nos livros, para se ater de forma "ascética" a conceitos marcados pelo niilismo e solipsismo.
O ensino no Brasil, sob essas ideologias conduzindo a mente de professores e alunos para afastá-los do acesso prioritário do conteúdo literário e humano dos livros, também deve considerar a importância de Tzvetan Todorov que, ao romper a cortina teórica, ideológica, que aliena e instrumentaliza o ensino da literatura, conduz ao contato e diálogo dos indivíduos com os autores, cujo conteúdo e leitura favorecem a formação construtiva e solidária das comunidades.
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| LIVRO PUBLICADO ESTE ANO PELA DIFEL |
"A LITERATURA EM PERIGO"
Tzavetan Todorov descreve de forma sucinta sua jornada pelo mundo dos livros e de seu fascínio pela leitura - que começou na infância, pela presença dos livros em casa e a natural influencia de seus pais, bibliotecários. Em determinado momento, já na França, onde fez doutorado com o famoso Roland Barthes, em 1966, perguntou: Porque amo a literatura? A resposta: Porque ela me ajuda a viver. Conta que a partir de 1994 tornou-se membro do Conselho Nacional de Programas, comissão ligada ao Ministério da Educação francês. Ficou surpreso e desapontado com a politica oficial do ensino da literatura. Na linha do estruturalismo percebeu que "ensinamos nossas próprias teorias acerca de uma obra em vez de abordar a própria obra em si mesma - a abordagem estrutural deixou de ser instrumento para impor-se como objetivo próprio"
Creio que podemos ilustrar essa situação por ele descrita como alguém que come a casca de uma fruta e joga fora a polpa, onde está o alimento, a doçura e as vitaminas. Afirma Todorov que o leitor não profissional de ontem e de hoje lê livros, obras "para nelas encontrar um sentido que lhe permita compreender melhor o homem e o mundo, para nelas descobrir uma beleza que enriqueça sua existência; ao fazê-lo ele compreende melhor a si mesmo".
Para Tzevetan Todorov "o conhecimento da literatura não é um fim em si, mas uma das vias régias que conduzem à realização pessoal de cada um". Além da concepção meramente estruturalista ou formalista da literatura, que ameaça a tradição milenar da comunicação escrita, por ser um caminho agora eivado pelo niilismo (o niilismo advoga a necessidade de reduzir a nada o que existe porque considera que o progresso da sociedade requer a destruição do que socialmente existe) e o solipsismo (doutrina que postula o "eu" como a única realidade do mundo dos homens. Conveniente para sistemas políticos esse isolamento, alienação e desconstrução da sociedade - perigo para a Democracia. A conjunção desses duas premissas pois, realmente coloca o estudo da cultura em perigo, desconstrói o legado da literatura com fins suspeitos de hegemonia ideológica e manipulação politica.
Contrariando essa tendencia esquerdizante que reinou na Europa e ainda reina no Brasil, Todorov afirma que o objeto da literatura tem raízes na própria condição humana, afirmando que "aquele que lê e compreende se tornará não um especialista em análise literária, mas em um conhecedor do ser humano".
Refere-se também ao valor exponencial da boa literatura quando a formação de homens e mulheres, profissionais de várias áreas, em pessoas solidárias e responsáveis. Ele pergunta: "Que melhor preparação pode haver para todas as profissões baseadas nas relações humanas? Se entendermos assim a literatura e orientarmos dessa maneira o seu ensino, que ajuda mais preciosa poderia encontrar o futuro estudante de direito, ou de ciências politicas, o futuro assistente social ou psicoterapeuta, o historiador ou o sociólogo? Cita autores como Shaquespeare, Sófocles, Dostoiévski, Proust como "professores de um ensino excepcional".
O livro "A Literatura em Perigo" (Editora Difel, 2019) é magnânimo em vários sentidos, não apenas pela expressão de uma paixão a leitura, manifesta pelo autor, escritor e filósofo, mas também pelo seu alerta a nossa geração - especialmente aos professores - frente a tentações de viés totalitário de alcance mundial, em nossos dias - instrumentalizando o ensino de ciências humanas com objetivos que, com certeza, não contribuem para o real progresso da humanidade em seu perene sonho de liberdade.
Trata-se, pois, de uma leitura essencial para quem pensa, estuda, escreve e que não quer submeter-se como alvo passivo da "militância geral" (O Editor).
LEIA TAMBÉM
- http://oglobo.globo.com/cultura/livros/estudo-classico-de-tzvetan-todorov-chega-ao-brasil-apos-duas-decadas-18573170#ixzz3yvOCNdHT
- http://editoraunesp.com.br/blog/em-memoria-a-tzvetan-todorov
- https://www.publico.pt/2017/02/07/culturaipsilon/noticia/morreu-o-ensaista-tzvetan-todorov-1761149


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