CARL GUSTAV JUNG, PROFUNDO CONHECEDOR
DA ALMA HUMANA, CUJO RELACIONAMENTO
É FUNDAMENTAL PARA A REALIZAÇÃO DO SER HUMANO
EM SUA INTEGRIDADE FISICA, PSIQUICA E SOCIAL
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| Meditação, uma das chaves para a individuação |
O título acima se refere a uma afirmação de Carl Gustav
Jung, um dos pais da psicanálise. Filho de um pastor protestante foi
marcadamente influenciado pelo cristianismo – apesar de sua formação acadêmica
eclética. Em várias ocasiões defendeu a espiritualidade real como uma das
geratrizes da vida psicológica saudável. Foi aluno de Sigmund Freud e, a nosso
ver, superou seu mestre que afirmava que o comportamento humano sempre é motivado
exclusivamente pela sexualidade. Jung rejeitou essa unilateralidade incluindo
outras motivações, especialmente à que diz respeito ao Espírito do homem.
Estudioso de si mesmo e de seus pacientes, Jung mergulhou na psique humana,
apontando nela portas para melhor compreensão de si-mesmo e do ser humano, suas
motivações e fundamentos. Destacava a importância dos sonhos como guias para a
sanidade. Sanidade cada vez mais rara em nossa época marcadamente relativista, materialista
e alienante.
Nossa intenção é, também,
meditar um pouco sobre nosso tempo, baseados na afirmativa inspirada de
Paulo: “Nos últimos dias sobrevirão
tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos,
arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes,
desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos
do bem, traidores, atrevidos, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus,
tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder” (2 Timóteo
3.2-5). A frase de C. G. Jung de que “nosso
tempo somos nós” cabe perfeitamente como explicação para a realidade
presente nas manchetes dos jornais e TVs. Não é difícil a gente manifestar
repúdio veemente diante de fatos como o do austríaco que abusava de sua filha,
mantendo-a presa por mais de 20 anos em seu bunker secreto; o morte da pequena
Isabella, jogada da janela de um apto – que a imprensa explorou exageradamente
– e tantos outros casos, desde o do cirurgião que matou a esposa com requintes
de crueldade, passando pela mulher que torturava sua filha adotiva, até aos
escândalos políticos atuais que envergonham nosso País – e que se sucedem em várias
partes do planeta. Por outro lado é auspicioso o crescente repúdio popular, no
Brasil, a essa arquitetura da corrupção – que veio se estruturando desde o fim
do regime civil-militar. Se durante décadas o fenômeno era circunscrito a
eventualidades, desde então foi sendo gerado como mentor estruturante da política
– bem como fundamentado em táticas para a permanência no poder por grupos
organizados ideologicamente. Grandes partidos e seus caciques foram flagrados e
delatados, sendo processados e, alguns, tendo que devolver o fruto de seus
roubos – avançando para lideranças suspeitas. Mais de 2,4 milhões de pessoas,
em curto prazo de tempo, se colocaram como signatários de um projeto-de-lei com
medidas para acabar com a corrupção – buscando fechar as brechas legais por
onde escapavam, ilesos e miseravelmente enriquecidos, personagens que agem nas
trevas de sua própria psique – como dançando com Mefisto – para se perpetuar no
poder legislativo ou executivo – contando para isso de apoios e conluios com
grandes empresários e industriais – Cujas marcas, hoje, são associadas ao crime
organizado - envolvendo até de ministros
do STF. Não bastasse essa marginalidade nos poderes da República
vemos somar a isso a mentalidade sovina e antissocial de grandes bancos,
mega-indústrias com a privatizada Vale do Rio Doce – o coração do minério
brasileiro, entregue no período de FHC – além de senadores e deputados, agindo
com mentalidade de repteis gigantes, deixando de honrar suas dívidas com a
União e com a Previdência Social – cujo déficit vem sendo atribuído pelo
governo em função da longevidade dos contribuintes do INSS – sem falar de
fraudes milionárias que zela o patrimônio dos contribuintes do INSS.
Se retroagirmos na História Brasileira qual o panorama desvendamos?
O País foi sendo formado por navegantes, aventureiros, bandeirantes e suas
bandeiras, cujos objetivos eram o enriquecimento com base na conquista de
riquezas e não no trabalho familiar – por isso escravizavam os indígenas,
levava-os ao exílio paulistano onde eram vendidos. O avanço das bandeiras
proporcionava terras para a coroa portuguesa, ou espanhola, como ocorria na
região sul do País – até as incursões de Borba Gato e Raposo Tavares, no sul –
além de outras bandeiras em direção a Minas, Bahia e Norte do País. Até mesmo
os jesuítas, quando uma tribo resistia a sua ação evangelizadora, passava a ser
encarada como inimiga pela Cia. De Jesus – gerando guerras contra os infiéis.
Mais tarde o País foi dividido em Capitanias Hereditárias. A coroa portuguesa,
então, destinava vastas áreas, retalhando o mapa em 21 capitanias, para os
nobres de sua predileção.
Todo esse lastro histórico impulsiona a mentalidade que
ainda governa o Brasil. De um lado a grande maioria do povo brasileiro,
secularmente explorado em seu trabalho – com milhões de escravos africanos
deportados de sua terra natal, miscigenados a índios, formando núcleos
quilombolas sempre ameaçados; tribos indígenas aniquiladas e outras
forçadamente aculturadas para poder sobreviver no ambiente hostil –
remanescente.
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| C.G.Jung abriu portas para o inconsciente humano |
Quando
Jung afirma que “nosso tempo somo nós” revela o quanto o legado do passado se
impõe sobre o presente – apontando para os recursos da nossa psique como
baluartes para a libertação. O fato é que o Brasil está sendo gestado nessa
saga de dores, desencontros e conquistas. Cresce aqueles que veem na vida
espiritual e religiosa poderosas motivações para vencer os inimigos, em sua
própria história, nas camadas de sua história subnerrânea, em busca da redenção
transcendental – conquistada no trabalho, na meditação cristã, nas comunidades religiosas
diversas, cujas personagens se reconhecem e se valorizam como seres humanos
dignos e capazes. Porém, mesmo nesses avanços capazes de unir, onde milhões de
pessoas têm sua história transformada pelo apoio, o abraço, palavras de estímulo,
a amizade sincera e não interesseira de fazer um novo membro dizimista da
denominação – ainda há muito a percorrer. Muitas vezes somos, apesar de
religiosos, também “egoístas, avarentos,
jactanciosos”. Como instituições, elegemos prioridades que contradizem os
ensinos das escrituras sagradas, para construir impérios religioso-financeiros
e nos ufanar de templos majestosos, redes de rádio e TV, conluios políticos,
tapetes felpudos, ar condicionado, mordomias clericais, etc.
Condenamos os governos como se não fossemos, também,
responsáveis pela miséria que nos cerca – porque somos omissos e esquecemos o
que Jesus disse a respeito: “Os pobres
vocês sempre terão consigo”. Nossa época somos nós e devemos discerni-la
principalmente a partir de nós mesmos, como professores, catedráticos,
religiosos, políticos, sociólogos, cristãos, indivíduos, e como parte da nacionalidade.
Devemos entender que, antes de tudo, a responsabilide é individual – a
consciência fala ao indivíduo e é o indivíduo que pode operar na sociedade
fomentando progresso verdadeiro, conquistas cientificas, bem estar social - a
honestidade e o altruísmo. Se as estratégias de grupos, à esquerda e à direita,
buscam hegemonia utilizando de ferramentas perversas e estratégias lesa-humanidade
devemos reagir com nossa força e nossa vontade de transformações que honrem o
Brasil e dignifiquem seu povo.
A Igreja, em sua prática, em seu papel de testemunha, é
também responsável pelas mazelas do nosso tempo. Quando a Igreja deixa de
refletir com fidelidade a imagem de Cristo – vivendo-a no dia a dia de um mundo
em crise e em transformação – deixa de ser um referencial legitimo e confiável
para a sociedade. Sabemos como grande parte da mídia nega revelar o que ela tem
de bom, saudável e magnânimo, porém a Igreja tem a obrigação de ser sal da
terra (o que dá sabor à vida) e luz do mundo – deve ser modelo e guia para
aqueles que ainda não tiveram a ventura de ser contemplado pela Misericórdia.
Jesus, referindo-se aos religiosos de seu tempo clamou: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas,
porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o
tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!” (Mt 23.15). Da mesma forma que Martinho Lutero, há 500 anos, afixou as
95 teses no portal da Catedral de Wittemberg, condenando os erros e apostasia da
Igreja de seu tempo, devemos também denunciar os erros e apostasias do nosso
tempo – sejam históricos, católicos, pentecostais, liberais ou neopentecostais.
Marie - Louise - von – Franz, em seu livro “C-G -
Jung - Seu mito em nossa época” escreveu: “Já antes da Primeira Guerra Mundial, Jung, durante uma crise de
solidão, passou por uma morte e renovação espiritual interiores, da espécie
que, passadas duas grandes catástrofes mundiais, tornou-se hoje mais comum
entre europeus e americanos cultos. Fica cada vez mais claro que os nossos
valores culturais foram solapados, de maneira que, mesmo em meio à massa, em
especial entre os jovens de hoje, há indivíduos que buscam não tanto a
destruição do antigo como algo novo que sustente uma construção. E, como a
destruição se disseminou tanto e foi tão profunda, esse novo fundamento deve
localizar-se nas profundezas, no núcleo humano mais natural, mais primordial e
universal da existência”.
Porque é que regimes ditatoriais, seja de esquerda ou
direita, erigem grandes monumentos deusificando personagens da “revolução”? Ao mesmo tempo que destroem
tradições, seja prendendo clérigos, queimando templos, partidarizando escolas, passam
a ritualizar o sistema através de grandes manifestações massivas, levando a
população – carente da atitude religiosa inerente à natureza humana, sua alma –
a um substitutivo na verdade incapaz de substituir o insubstituível, que é a
liberdade de ser sua própria essência – o lenitivo para a formação de
personalidades capazes de pensar com a própria cabeça e tomar decisões baseadas
na ética do senso comum, que brota do que há de mais genuíno em si mesmo. Se o capitalismo sem freios legais tende a formar pessoas
imbecilizadas, formatadas ao gosto do mercado, o socialismo revolucionário
formata multidões para a glória dos deuses substitutos – lnas figuras
entronizadas nesses cultos materialista de inspiração luciferiana, o anjo usurpador.
Carl Gustav Jung escreveu: “Existe no homem uma predisposição religiosa; é um arquétipo da alma...
Entre meus pacientes que ultrapassaram a metade da existência, isto é, os 35
anos, não há um só cujo problema
decisivo não seja o da atitude religiosa. Pode-se afirmar que cada um deles, em
última análise, perdera aquilo que as religiões vivas têm dado a seus fiéis em
todos os tempos e nenhum deles realmente se curou, sem ter recuperado sua
atitude religiosa”. Destaca Jung que “o problema da cura é, por conseguinte, às
mais das vezes um problema religioso”.[1]
“Nosso tempo somos nós”. Essa declaração, escrita e falada por
um cientista, um dos pais da psicanálise, profundamente conhecedor de si mesmo,
de seus pacientes e das doenças mentais da atualidade, deve nos levar a assumir
nossa responsabilidade como indivíduos capazes de mudar a história através de
atitudes reais, transformadoras, no dia a dia, nos embates em busca de solução
para o tempo em que fomos destinados viver. Entre aqueles que se espelham em
Lúcifer, em sua sede ilimitada de poder e dominação - e os que buscam em sua essência, no íntimo de
sua psique, o resgate de sua imagem e semelhança a Deus, há um caminho de
desafio supremo cujo prêmio é a própria sanidade e alegria de se sentir como
parte construtiva de um mundo carente de referenciais que dignifiquem o ser
humano, preservem e valorizem o meio ambiente onde desfruta com milhões de
espécies a fantástica aventura de viver.
(José J de Azevedo)
[1]
JUNG, Carl Gustav – in “Individuação, a psicologia de profundidade
em C.G. Jung” – Josef Goldbrunner - Editora Herder - SP, 1961” – Pgs 128-129.



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