TRIBOS
GUARANI-KAIOWÁ DE CAAPÓ E REGIÃO
LAMENTAM ASSASSINATO
DE MAIS UM IRMÃO
... “Então se começaram de chegar muitos.
Entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam; traziam
cabaços de água, e tomavam alguns barris que nós levávamos: enchiam-nos de água
e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todos chegassem à borda do batel. Mas
junto a ele, lançavam os barris que nós tomávamos; e pediam que lhes dessem
alguma coisa. Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um
cascavel, a outros uma manilha, de maneira que com aquele engodo quase nos
queriam dar a mão (...)[i].
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| Enterro do índio morto no conflito entre Guarani Kaiowá e grupo de pistoleiros armados no Mato Grosso-do Sul |
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| Índio ferido no ataque dos fazendeiros armados |
Mais de cinco séculos depois de serem bem recebidos
os brasileiros até hoje tratam tanto os índios como a terra, com suas fontes,
rios e florestas com menosprezo, curvados sob o peso de seu deus dinheiro. Dezenas, talvez
centenas de idiomas foram silenciados: escravidão, doenças venéreas, deportação, alcoolismo, genocídio. Há
mais de 500 anos os brancos europeus foram recebidos com água doce, em cabaças,
hoje os índios são mortos a tiros de fuzil depois que os expulsam de sua terra.
Ontem, 14.6.16, ocorreu o assassinato do índio Clodio de Aquileu Rodrigues de Souza, de 26 anos,
de um aldeamento perto da aldeia Te' Ýikuê. O jovem guarani-kaiowá, que era agente de saúde - do acampamento
Pyelito Kue - Caapo, que fica há 270 Kms de Campo Grande-MS, com outros 6 indios, inclusive um menor, hospitalizados. Esse é mais um atestado de criminosa irresponsabilidade, tanto do
governador estadual, o agropecuarista Reinaldo Azambuja, como do governo federal,
sob Lula e Dilma, José Sarney, Itamar Franco e Fernando Henrique - , desde a criação do Estado do MS. Essas personagens devem
contabilizar mais uma vitima em seu armário biográfico.
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| Manifesto indigena. Governo contabiliza mais uma morte por descaso irresponsável |
GRILOS, FAZENDEIROS E TERRA INDIGENA
Conforme o site do Ministério Público Federal, em
31.10.2012, “o Tribunal
Regional Federal da 3ª Região, em São Paulo, suspendeu operação de retirada dos
índios guarani-kaiowá do acampamento Pyelito Kue, atendendo ao pedido da
Fundação Nacional do Índio, após intensa mobilização de cidadãos na internet. O
Ministério Público Federal tinha feito o mesmo pedido e foi contemplado pela
decisão de hoje”. Na ocasião, a desembargadora Cecilia Mello determinou o
envio da decisão à presidente da República, Dilma Rousseff e ao ministro da
Justiça, José Eduardo Martins Cardozo. À Funai, a desembargadora determinou que a fundação
"deve adotar todas as providências
no sentido de intensificar os trabalhos e concluir o mais rápido possível o
procedimento administrativo de delimitação e demarcação das terras".[ii]
Os trabalhos se arrastam há muitos anos – talvez décadas -, quando a FUNAI
assinou um Termo de Ajuste de Conduta com o MPF para examinar a questão
territorial dos Guarani-Kaiowá.
A situação dos Guarani-Kaiowá em Pyelito Kue se tornou
assunto em todo o país quando os índios divulgaram uma carta em que se
declaravam dispostos a morrer em vez de deixar as terras, assim que foram
notificados do despejo pela Justiça Federal do Mato Grosso do Sul.
Pois bem, o governo federal não teve voz ativa, a
FUNAI, apesar de esforços, não conseguiu delimitar a área indígena – culminando
com o ataque de pistoleiros armados avançando sobre cerca de 150 índios que
sobrevivem precariamente, contando com parca assistência do governo federal –
enquanto empurra-se com a barriga uma decisão judicial contestada posteriormente.
Os primeiros aventureiros de Portugal foram
recebidos com cabaças de água doce – mostrando a gentileza com que os forasteiros
foram recebidos; aqui os índios geralmente são expulsos ou recebidos com ameaças e balas. A
morte desse índio há de ficar para sempre na já manchada consciência de
governantes que ganham muito bem e agem contra qualquer principio de civilidade
para com os primeiros habitantes da terra. Nesse caso prá que uma Secretaria Nacional dos Direitos Humanos? Apenas para destinar verbas a minorias barulhentas e engajadas das metrópoles?
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| Cerca de 170 Guarani-Kaiowá ameaçados por fazendeiros em função de contradições legais |
CONFLITO ANTIGO E INOPERANCIA OFICIAL
O conflito é antigo e fez outras vítimas. Conforme a
Agência Brasil, em 01.09.2015, “lideranças indígenas protestaram hoje (1º)
em Brasília, em reação à morte do guarani-kaiowá Simeão Vilhalva, de 24 anos,
no último sábado (29), no município sul-mato-grossense Antônio João. Eles
levaram um caixão para a frente do Palácio do Planalto, do Supremo Tribunal
Federal (STF) e do Ministério da Justiça. O crime ocorreu quando um grupo de
fazendeiros tentou retomar à força, e por conta própria, terras ocupadas por
indígenas desde agosto. Outros dez índios, entre crianças, ficaram feridos,
conforme as lideranças”[iii].
Essas fazendas estão na área da terra indígena
Nhanderu Marangatu, homologada em 2005 pelo governo federal. Naquele mesmo ano,
o então ministro STF Nelson Jobim determinou, em liminar, a suspensão do
decreto. Com a decisão, os índios foram para uma área provisória a fim de
aguardar o julgamento final do STF.
“Elaborado
pela antropóloga Alexandra Barbosa da Silva, o resumo do relatório
circunstanciado de identificação e delimitação da Terra Indígena Iguatemipegua
I, reconhece, através de relatos orais, registros e documentação escrita, o uso
e a ocupação tradicional Guarani Kaiowá dos espaços territoriais constituídos à
margem esquerda do rio Iguatemi: “A TI Iguatemipegua I é de ocupação
tradicional das famílias kaiowa dos tekoha Pyelito e Mbarakay, apresentando as
condições ambientais necessárias à realização das atividades dessas mesmas
famílias e tendo importância crucial do ponto de vista de seu bem estar e de
suas necessidades de reprodução física e cultural, segundo seus usos costumes e
tradições, correspondendo, portanto, ao disposto no artigo 231 da Constituição
Federal vigente”, conclui o estudo conforme site da Funai-MS (01.09.2013 ).
A Funai informa que 1.793 índios das etnias Guarani
e Kaiowá vivem em duas comunidades pertencentes à área reconhecida: Pyelito Kue
e Mbarakay. 46 fazendas pertencentes a não índios estão na área indígena há
cerca de 40 anos e, segundo o estudo, são responsáveis pela exclusão
territorial indígena e degradação ambiental:
“A publicação do resumo do estudo
é o primeiro passo para a homologação da Terra Indígena. Indígenas e produtores
rurais das fazendas envolvidas têm agora, 90 dias para questionar o estudo ou
partes dele. Após essa etapa, a Funai tem um prazo de 60 dias para encaminhar o
processo ao Ministério da Justiça, para declaração da área como Terra Indígena”[iv].
Na verdade esses conflitos de decisões entre governo
estadual, MP, STF, governo federal, giram em torno do interesse de sucessores
de grileiros de terras – como se costuma fazer no Brasil - as tribos indígenas ficam à margem da Lei. Nos EUA a reforma
agrária foi feita há mais de 200 anos, com a delimitação das terras indígenas.
No Brasil há invasão de terras públicas e terras indígenas por fraudatórios com
ligações políticas e cartoriais. Com
isso a injustiça prospera e novas vitimas são anexadas ao conjunto da obra de
autoridades que se contrapõem e não resolvem o grave problema fundiário, no
Mato Grosso do Sul e em outras regiões do país.
Conforme site do Ministério da Justiça, no dia 16.6.16, a Funai está na área,prestando auxilio a tribo atingida, juntamente com soldados da Guarda Nacional: "A Funai, no cumprimento de seu papel de proteção e garantia dos direitos dos povos indígenas, manifesta extrema preocupação com a situação de permanente conflito fundiário que, ano após ano, leva à morte indígenas Guarani-Kaiowá. Também considera que qualquer contestação à delimitação territorial realizada pela autarquia deve acontecer por meio das vias legais próprias. A violência e o confronto armado são reações desproporcionais e inaceitáveis, sobretudo quando o ataque assola população vulnerável".[2]
Conforme site do Ministério da Justiça, no dia 16.6.16, a Funai está na área,prestando auxilio a tribo atingida, juntamente com soldados da Guarda Nacional: "A Funai, no cumprimento de seu papel de proteção e garantia dos direitos dos povos indígenas, manifesta extrema preocupação com a situação de permanente conflito fundiário que, ano após ano, leva à morte indígenas Guarani-Kaiowá. Também considera que qualquer contestação à delimitação territorial realizada pela autarquia deve acontecer por meio das vias legais próprias. A violência e o confronto armado são reações desproporcionais e inaceitáveis, sobretudo quando o ataque assola população vulnerável".[2]
CARTA
ABERTA DOS GUARANI-KAIOWÁ
Em 2012, sob impacto de mais uma vitima fatal a
tribo indígena que agora lamenta a morte de mais um de seus irmãos, lançou uma
carta-manifesto. O documento comoveu e girou o mundo, nele a etnia Guarani-Kaiowá afirma que não sairão da terra de seus ancestrais e, para tal, estão dispostos a morrer. Eis a íntegra:
“Carta
da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo
e Justiça do Brasil”.
“Nós
(50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias
de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa
situação histórica e decisão definitiva diante de da ordem de despacho
expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº
0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a
informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da
margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS. Assim, fica evidente
para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências
contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do
rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay.
Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte
da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e
autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está
violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao
Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver
dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na
Justiça brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra
nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está
gerando e alimentando violências contra nós.
Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer
todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e
justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a
50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de
suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das
fazendas. Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma
assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos
comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território
antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse
nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e
bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados. Cientes desse
fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos
nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo
e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas
solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos
aqui.Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção
total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é
nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça
Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito
Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não
sairmos daqui com vida e nem mortos.Sabemos que não temos mais chance em
sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e
estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos
expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do
rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos
mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão
unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS”.
Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito
Kue/Mbarakay
Há uma lentidão de jabuti e cegueira de morcego na demarcação das áreas
indígenas, enquanto isso suas terras vão sendo griladas, vendidas de forma
ilegal, vêm as madeireiras, os pastos, as pequenas cidades e os indígenas vão
sendo comprimidos em espaços cada vez mais exíguos – até que o conflito chega.
O lamento das tribos indígenas do Brasil ecoa pelo mundo, através de redes de
TV, artigos em jornais, para vergonha nossa. Onde é que estão a ONU, a OEA? Politicamente corretas, caladas, tornam-se cumplices desses assassinatos.
Na penúltima morte, quando a tribo guarani-Kaiowá levou
o índio morto a Brasília, lamentando o crime, a professora indígena Teodora de
Sousa pediu ao governo federal providências urgentes para acabar com a
violência contra os índios. “Nós queremos
um basta, e que o Estado brasileiro resolva os nossos problemas, demarque as
nossas terras e nos devolva o que é nosso de direito”. O cortejo esteve no
Palácio do Planalto, passou pelo STF – Supremo Tribunal Federal e pelo Ministério
da Justiça.
O conceito filosófico de politica diz respeito “a arte de fazer o bem”. No Brasil parece
que algo foi acrescentado a esse conceito: “A
arte de fazer o bem prá si mesmo”. Talvez observaram o cortejo e pensaram,
ora bolas, é apenas um mais índio morto.
José Julio de Azevedo
[1] http://rutevera.blogspot.com.br/2012/10/a-integra-da-carta-dos-guarani-kaiowa.html
[2] http://www.funai.gov.br/index.php/comunicacao/noticias/3805-guaraniataque
[2] http://www.funai.gov.br/index.php/comunicacao/noticias/3805-guaraniataque
[i] Fundação
Biblioteca Nacional





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